segunda-feira, 28 de abril de 2014

Como o cérebro guarda lembranças

Seu cerébro: Eis o que você é



por Lúcia Helena de Oliveira, de San Diego


Suas recordações de 1995 e seus planos para 1996, seus pensamentos mais lógicos e seus sonhos mais absurdos, seu talento para certas coisas e sua total inabilidade para outras, suas paixões, até seu jeito de falar e caminhar, tudo é pura química. São apenas substâncias diferentes que saltam de uma célula cerebral para outra, provocando correntes de eletricidade. Agora os cientistas começam a entender como essas mensageiras nervosas moldam a personalidade.

Uma dinamite explodiu por acidente durante a construção da ferrovia de Vermont, Estados Unidos, em 1848. O estouro projetou uma barra de ferro com tanta força que ela atravessou a bochecha de um dos operários, saindo pelo topo da cabeça. A vítima de 25 anos, Phineas Gage, sobreviveu. Mais do que isso, não sofreu nenhuma seqüela física, não perdeu a memória, não ficou com a inteligência alterada. Só que, em vez de continuar sendo um homem ponderado, passou a agir sem pensar nas conseqüências. Coisas que gostava de fazer, como ficar entre amigos, ele passou a odiar. Por mais de um século esse acidente raro foi considerado um enigma médico e quebrou também a cabeça dos cientistas. Recentemente é que eles começaram a entender o motivo da mudança: a personalidade de um indivíduo tem uma moradia, que fica logo atrás de sua testa. É o lobo frontal do cérebro, justamente a região danificada pela barra arremessada.
Esse e outros endereços cerebrais só foram bem localizados nos últimos cinco anos, graças a técnicas que mostram o cérebro com impressionante nitidez. Assim, comparando as imagens de pacientes com alterações de personalidade, os pesquisadores notaram que esse problema sempre tem a ver com lesões na mesma área machucada em Phineas Gage. “Começamos a entender o papel de cada região do sistema nervoso”, comemora a médica Carla Shatz, que presidiu o 25º Encontro Anual da Sociedade Americana de Neurociências.
Mais de 20 000 pesquisadores do mundo inteiro participaram do evento em novembro do ano passado, em San Diego, na Califórnia, marcando a metade de um gigantesco desafio. Em julho de 1989, o então presidente dos Estados Unidos George Bush assinou um decreto designando os anos 90 como a década do cérebro. A investigação do sistema nervoso passou a ser o principal foco de investimentos em saúde naquele país. E isso acabou se refletindo em laboratórios de vários cantos do planeta.
Conexões são a chave
“Resta saber como as regiões da massa cinzenta influenciam umas às outras”, diz Carla Shatz. Quando se retira quase metade do cérebro de uma criança por causa de doenças, o restante pode aprender o trabalho do pedaço extraído. Até os dez anos de idade, qualquer neurônio é um bom aprendiz, ligando-se a neurônios vizinhos para adquirir outras funções. Quanto mais jovem é alguém, maior a plasticidade dessas células – sua capacidade de criar conexões, que são a base das habilidades e da personalidade. Mas isso ainda não justifica a fantástica recuperação das crianças: de onde vêm as instruções para as tarefas, se as áreas que as realizavam não estão mais lá?
Um avanço foi demonstrar que “as experiências infantis ajudariam a esculpir a mente, mudando a organização dos neurônios”, segundo Ned Kalin, da Universidade de Wisconsin. Sua equipe separou filhotes de macacos de suas mães para provocar estresse nos recém-nascidos. Adultos, os ex-macaquinhos estressados se tornaram animais irritadiços. “Com seres humanos não deve ser diferente”, supõe Kalin. “O que acontece com um bebê pode mexer para sempre com o seu humor no cérebro.”
Quem não comunica se trumbica
O cérebro é mole e pesa cerca 1,3 quilo. Por meio de um microscópio eletrônico, é possível ver que ele parece um emaranhado de fios – os prolongamentos de seus 100 bilhões de neurônios. Estudos recentes mostram que eles são capazes de se multiplicar 250 mil vezes por minuto nos dois primeiros meses de gestação. Mas provavelmente metade morre antes de o bebê nascer, como se apenas os mais sociáveis, aqueles que se comunicam direito, pudessem seguir em frente.
“Durante muito tempo, a gente se preocupou em observar como os prolongamentos dos neurônios cresciam para formar sinapses, isto é, para encontrar outros neurônios que muitas vezes estavam a centímetros de distância”, conta a pesquisadora Story Landis, do Instituto Nacional de Distúrbios Neurológicos, nos Estados Unidos. “É fascinante que durante o desenvolvimento do sistema nervoso uma célula ‘saiba’ em que direção estão as destinatárias de suas mensagens”, diz a cientista que, no entanto, já não considera isso o mais importante. “OK, dois neurônios esticaram seus prolongamentos no rumo certo até se encontrarem, mas a partir daí como decidem em que língua irão conversar?”, pergunta.
A linguagem das células nervosas são moléculas chamadas neurotransmissores. De um lado, o neurônio transmissor deve começar a fabricá-las escolhendo entre mais de cinqüenta tipos. E, de outro, o neurônio interlocutor deve criar receptores para encaixá-las perfeitamente em sua membrana. “Se esse acordo inicial não for bem feito, há muita chance de problemas – emocionais, de memória, de raciocínio”, afirma Dennis O’Leary, do Instituto Salk, em San Diego. “Embora possam parecer coisas bem diferentes, todos esses processos não passam de um bate-papo entrosado, em que não faltam nem sobram neurotransmissores.”
Os traumas marcam os neurônios
Muitas vezes, quando a cabeça da gente não vai lá muito bem, não faltam moléculas mensageiras e, sim, receptores para elas. Tanto um problema como o outro, no início, eram atribuídos a defeitos nos genes. Esse ano, na conferência de San Diego, os cientistas constataram que nem sempre é assim. Em muitos casos, os genes fizeram seu serviço direito e o cérebro nasce de bem com a vida. Mas depois as coisas saem dos eixos. Em ratos, ao menos, o estresse constante causa danos em duas estruturas cerebrais envolvidas com a emoção – a amígdala cerebral e o hipotálamo. Coincidência ou não, os ratos com lesões são muito mais medrosos, de acordo com pesquisadores da Universidade de Wisconsin.
“A mesma substância associada ao estresse dos ratos – um hormônio chamado CRF produzido pelo próprio cérebro – é mais encontrada no organismo de quem passou por fortes experiências traumáticas: estupros, assaltos e catástrofes como terremotos”, afirma o médico americano Charles Nemeroff, da Universidade Emory. Ele e seus colegas passaram o último ano examinando vítimas desses episódios traumáticos com ressonância magnética. E notaram que elas apresentam a glândula hipófise ligeiramente maior do que a média da população, enquanto o hipocampo costuma ser menor. “Vários estudos indicam que o estresse psicológico intenso produz alterações sem volta”, diz à SUPER Dennis Charney, da Universidade Yale, nos Estados Unidos. “O que antes seria razão apenas para melancolia passa a ser motivo de uma profunda depressão, por causa dessas alterações. A tendência em Medicina é assumir que a maioria das vítimas de traumas vai precisar tomar remédio para sempre, como um diabético necessita de insulina”.
Cobaia vira fera
Sem dúvida, a mais badalada substância ligada aos sentimentos é a serotonina. Seu nome já aparecia quando o assunto era tristeza. Agora, ela está sendo acusada de ser a responsável por todo tipo de comportamento agressivo. “Na verdade, é a falta dessa molécula que está sendo associada à violência”, esclarece Frederick Moeller, professor da Universidade do Texas que submeteu um bando de ratinhos a uma dieta pobre em triptofano – proteína sem a qual o cérebro não consegue fabricar esse neurotransmissor. E, nessas condições, as cobaias ficaram umas feras.
Outro pesquisador americano, David Goldman, do Instituto Nacional de Saúde Mental, descobriu um defeito genético em determinados receptores de serotonina. “Em tese, se o paciente tem o defeito, a molécula não age direito e o comportamento agressivo tende a aumentar”, diz Coleman, que estudou 81 alcoólatras violentos na Finlândia. Em três deles, o gene do receptor era anormal.
Sentimentos alteram o pensamento
Se o cotidiano pode mudar nossa maneira de sentir, a recíproca é verdadeira: os sentimentos alteram o raciocínio e a percepção do dia-a-dia. Pesquisadores do Instituto Weizmann, em Rehovot, Israel, provaram que as emoções fazem a gente ver o mundo de um jeito diferente. “Voluntários tinham que descrever fotografias, enquanto monitorávamos a área cerebral da visão”, diz à SUPER Armando Arieli, chefe da equipe. “Antes, fizemos entrevistas para saber se tinham alguma preocupação ou se estavam ansiosos mesmo que fosse por um motivo positivo. E, de cara, podíamos prever um padrão para as ondas cerebrais”, conta. Isso porque os exames apontam que existe um gráfico das ondas típico para cada estado de espírito.
Cabeça na lua
Os cientistas já sabem, por exemplo, que a alegria muitas vezes dificulta as coisas. Imagens de ressonância magnética mostram que as áreas ligadas a cálculos e raciocínio lógico podem funcionar devagar quase parando se as células nervosas estão banhadas de endorfinas e outras substâncias conectadas ao contentamento – é a tal impressão de estar com a cabeça no mundo da lua.
Mas há uma área cerebral que nunca trabalha menos: é o tálamo. Ele agora é considerado um órgão fundamental para a sensação de ter consciência – a noção de que você sabe quem é, o que faz e o que pensa a cada instante. O tálamo funciona como um radar, captando todas as informações ao redor. Só que a gente não tem consciência de tudo. Os dados despercebidos podem estar arquivados em algum local ainda indefinido – o inconsciente. Mas também existe a suspeita de que muita coisa é mesmo jogada fora.
Nesse sentido, cientistas da Universidade de Dusseldorf, na Alemanha, liderados por Joseph Huston, fizeram uma descoberta: ao se destruir um pequeno grupo de neurônios de ratos, os bichos ficam mais espertos e aprendem mais depressa. Como poderia uma lesão causar algum benefício? “As células eliminadas são justamente as produtoras de histamina. Talvez essa substância seja uma espécie de cadeado impedindo que o cérebro guarde tudo o que vê, ouve ou sente”, explica o professor Huston.
Ligada aos processos alérgicos, a função da histamina já era bastante conhecida no resto do corpo. O que ninguém sabia é o que ela estaria fazendo em pleno sistema nervoso, no qual foi flagrada há três anos. A experiência de Dusseldorf pode ser a explicação: “Provavelmente seu papel é protetor, deixando que um indivíduo memorize apenas o que é essencial ou do seu interesse.”
Andar de bicicleta
Outra revelação é a do papel do cerebelo no raciocínio. Essa estrutura com jeito de concha, próxima da nuca, era conhecida por comandar gestos automáticos como um piscar de olhos. Mas parece que o cerebelo também participa do aprendizado. “Dentro dele, existem células especializadas em memorizar movimentos”, garante o professor William H. Tach, da Universidade de Washington. “É ele o responsável por aquela história de que aprendemos a andar de bicicleta uma vez e depois nunca esquecemos.”
A experiência da pesquisadora Julie Fiez, também da Universidade de Washington, é mais impressionante Ela pediu que pacientes com danos no cerebelo realizassem a seguinte tarefa: ao ouvirem um verbo como chutar os voluntários tinham que associá-lo a um substantivo, como pé ou chuteira.“Em pessoas normais as respostas são cada vez mais rápidas, pois elas logo se acostumam com a tarefa”, conta Julie. “Mas com o cerebelo afetado, parece não haver melhora. Ou seja, a estrutura deve ser fundamental para se automatizar qualquer coisa, como as regras de um jogo, e não apenas memorizar os movimentos.”
Doença mental pode ser prevenida
Todo o interesse em ver como o cérebro funciona é para aprender por que muitas vezes ele não funciona bem. Está aí a intenção prática da década do cérebro. Existem em torno de 1 000 distúrbios mentais conhecidos – de depressão à esquizofrenia, passando por dificuldades diversas de aprendizado. Em cada cinco habitantes do planeta, um já teve ou tem algum desses problemas, cujo tratamento custa muito dinheiro e pode ser ineficiente, uma vez que tudo ainda carrega certa aura de mistério.
Hoje os cientistas procuram, por exemplo, moléculas que fixam lições de casa. Claro, não servirão de remédio para crianças normais, mas para aquelas com grandes dificuldades em gravar idéias na mente. Uma droga assim poderá ser testada antes do final desta década em homenagem ao sistema nervoso.
Estresse atrapalha a memória
A ciência também pretende frear o envelhecimento cerebral. Nos últimos cinco anos descobriu-se muita coisa sobre a perda de memória que aparece em menor ou maior grau na terceira idade. Não há mais duvida: os hormônios despejados no corpo durante o estresse do dia-a-dia vão estragando aos poucos o hipocampo. E daí essa região ligada à fixação das lembranças já chega à idade madura bastante estropiada. “Assim como os cardiologistas ensinaram os jovens a comer menos gorduras para evitar infartos no futuro”, diz a neurologista americana Carla Shatz, “nós vamos mostrar que uma juventude menos estressada é fundamental para manter o cérebro saudável na velhice.” Além disso, os pesquisadores estão investigando moléculas que os neurônios secretam durante o sono para arquivar novas memórias. Se forem reproduzidas em laboratório, surgirão remédios capazes de acabar com as dificuldades de lembrar.
A área de pesquisa mais obscura ainda é a da esquizofrenia, doença em que o paciente tem bruscas alterações de humor, não consegue formular pensamentos com lógica e, freqüentemente, sofre alucinações. Só agora seus mecanismos começam a ser esboçados pela ciência. Estudos indicam que os esquizofrênicos têm uma atividade exagerada em certas áreas cerebrais, como a frontal. “Até agora os médicos apenas vinham presumindo pelos sintomas que o paciente era ou não um esquizofrênico”, conta a psiquiatra Carol Tamminga, do Centro de Psiquiatria de Maryland, nos Estados Unidos.
Volta ao normal
A médica está animada com as imagens desordenadas do cérebro esquizofrênico. “Se a gente entender o que essa doença tem de diferente em relação ao padrão normal, vamos fazer diagnósticos mais objetivos”, especula Tamminga. “O mais importante, porém, será o trabalho de prevenção, pois poderemos detectar e tratar gente com o problema antes de as crises aparecerem.”
Uma em cada cem pessoas sofre de esquizofrenia – e em 89% dos casos os sintomas aparecem entre os 15 e 25 anos de idade. “Antigamente, essa gente era rotulada de louca. Hoje seu problema é comparado à hipertensão, ou seja, a um distúrbio que, em tese, pode ser corrigido com medicamentos”, diz a médica. Até o momento, as drogas mais eficientes em testes são aquelas que se encaixam nos receptores do neurotransmissor dopamina, impedindo que ele aja. “Não tenho dúvida que a dopamina está envolvida nesse processo”, diz o psiquiatra inglês Raymond Dolan, do Instituto de Neurologia de Londres. “A questão é que, como em muitos distúrbios mentais, devem existir vários fatores envolvidos. E estamos apenas começando a trajetória para decifrá-los. Será uma década sem fim.”
Para saber mais
Healing and the Mind, Bill Moyers, Doubleday Editors, Nova York, 1995

A divisão do trabalho na nossa cabeça

Graças a técnicas recentes como a ressonância magnética, que permite ver quais áreas do sistema nervoso estão ativadas quando se realiza determinada tarefa, é possível traçar um mapa mais preciso das funções de cada parte do cérebro
Departamentos da emoção

Área da sensibilidade
Uma série de estruturas forma o sistema límbico que controla os órgàos do corpo. Como aqui também são produzidas as emoções, essas sempre influenciam o funcionamento do organismo.

Gravador
O hipocampo grava memórias que, depois, são arquivadas em toda a massa cinzenta. A gravação sai melhor ou pior conforme a quantidade de moléculas produtoras de sentimentos. Elas são fixadores de recordações. A exceção são as substâncias do medo, que às vezes têm efeito oposto: sob a influência delas, o hipocampo pode fazer um episódio aterrorizante cair no esquecimento.

Gerador de sentimento
Parte do sistema límbico, a amígdala cerebral é a principal produtora das emoções.

Elo com o corpo
O hipotálamo traduz o que se sente: ordena uma descarga de hormônios e pode fazer o coração acelerar.

Onde o serviço acumula
Desigualdade
A massa cinzenta não tem a mesma aparência nos dois lados. A área lateral ligada à audição é a prova: ela costuma ser mais espessa no hemisfério esquerdo, que tem a tarefa extra de decifrar o que os outros falam.
É sempre assim: as regiões do córtex que mais trabalham crescem mais. Talvez por isso os músicos tenham áreas de audição mais desenvolvidas do que a média da população.
Os ventrículos são reservatórios do fluido que banha os neurônios

A sede da consciência
Na ilustração ao lado o que se vê é o córtex, a camada externa, com cerca de 8 milímetros de espessura. Só quando as informações chegam nessa superfície é que se tem consciência delas. No córtex também ficam as funções mais nobres, divididas em quatro áreas de cada lado, chamadas lobos

Ponto de encontro
Logo atrás da testa fica o lobo frontal, onde a razão e a emoção se encontram. No cérebro, esses dois conceitos são inseparáveis, pois toda atitude ou decisão (como ir a uma festa) ativa as moléculas envolvidas com sentimentos (ansiedade, alegria ou mesmo raiva, se você não queria sair de casa). Nessa região também fica a capacidade de falar.

Local da agitação
O córtex motor comanda os movimentos. Mais de 60% dele são dedicados à face e às mãos, áreas do corpo que realizam a dança muscular de gestos, caras e bocas.

Área dos sensores
O lobo parietal, no alto da cabeça, interpreta as informações sensoriais, como sinais de calor ou de frio no ambiente.

Lugar das paisagens
As imagens percebidas pelos olhos são analisadas no lobo occipital.

Zona do barulho
Tanto na lateral esquerda como na direita encontra-se o lobo temporal, envolvido com o aprendizado de qualquer coisa, especialmente o da linguagem. Faz sentido, porque aqui também são processadas as informações sonoras captadas pelos ouvidos.

Fábricas de idéias
Os personagens principais
Qualquer pensamento é produzido pelos neurônios, as células cerebrais que lembram um cometa. A cauda, no caso, tem centenas de ramificações chamadas dendritos, que captam sinais de outros neurônios. Os sinais são correntes elétricas que percorrem toda a célula até alcançarem outros prolongamentos, chamados axônios, ao redor de seu corpo. “Ali, a eletricidade faz com que bolsinhas internas ou vesículas acabem se fundindo com a membrana”, descreve o professor italiano Pietro DeCamilli, da Universidade Yale, nos Estados Unidos. Então, as bolsas estouram liberando moléculas de neurotransmissor. Parte delas é reabsorvida. Outra parte salta um espaço microscópico e se encaixa em receptores feito fechaduras do neurônio vizinho. O encaixe vai disparar a corrente elétrica nessa segunda célula e começa tudo outra vez. “O ciclo completo é chamado sinapse”, explica DeCamilli.

Rede de comunicação
Supercomputador
O tálamo se comunica com o córtex para captar e somar todas as informações conscientes em determinado instante.

Troca de informação
O corpo caloso liga os dois hemisférios cerebrais. Serve de ponte para que as informações do lado esquerdo alcancem o lado direito e vice-versa.

Ordens químicas
A hipófise é a glândula-mãe. Ela recebe os sinais nervosos do hipotálamo e os repassa na forma de comandos químicos para todas as glândulas do corpo.

Quem dá o ritmo
O cerebelo se comunica com os músculos para sincronizar os movimentos. Assim, controla até que ponto você precisa estender o braço para cumprimentar alguém.

Cabo de transmissão
A medula transmite os comandos cerebrais para o restante do organismo.

Dois motivos para ficar com raiva

Por trás de qualquer ato de violência existe a deficiência de uma molécula chamada serotonina. Veja quais podem ser as causas
Ou falta matéria-prima...


1. A fábrica
A serotonina, molécula reguladora das emoções, é montada dentro do neurônio.

2. O ingrediente
Para isso, o neurônio junta moléculas de uma proteína chamada triptofano.

...Ou o encaixe é defeituoso

Quem é calmo...
Normalmente, a serotonina se encaixa perfeitamente nos neurônios das áreas ligadas às emoções.

...E quem é agressivo
Às vezes, pode ser que não falte serotonina no cérebro. Mas, em certos indivíduos, ela não se encaixa direito nos receptores. Então, não consegue agir. Talvez exista gente que já nasce com receptores defeituosos e, portanto, com tendência à violência.

3. Os fornecedores
O abacaxi e o leite são ricas fontes de triptofano. Sem ele, a tendência a ficar nervoso aumenta.

Emoções criadas em laboratório

Surge uma nova geração de remédios para os distúrbios mentais. São moléculas que intereferem nas substâncias ligadas aos sentimentos
As imagens ao lado são do mesmo indivíduo. As manchas vermelhas e amarelas são áreas de baixa atividade. A foto superior é um retrato nítido de depressão . O paciente, depois, tomou drogas da família do Prozac, que inibem a serotonina. Pois a falta dela causa agressividade, mas o excesso provoca um tremendo desâmino. Na imagem inferior , após a medicação, as áreas cerebrais de pouca atividade diminuíram.

A maquilagem da mente
Como agem os medicamentos que modulam o estado de espírito

1. Centro da emoção
A amígdala cerebral e o hipocampo são as estruturas que mais liberam substâncias produtoras dos sentimentos.

2. Regulagem
Nas células dessas regiões é importante que não faltem nem sobrem substâncias como a serotonina. Caso contrário, o desequilíbrio químico se tornará instabilidade mental

3. Substituição
Quando o problema é causado pelo excesso de certas moléculas, como na depressão, o remédio deve bloqueá-las, muitas vezes ocupando seu lugar nos receptores 1.

4. Estímulo
Quando algum distúrbio mental é provocado por uma deficiência – como a falta de setoronina no caso da violência – o ideal é criar um remédio que estimule sua produção 2.

Sinais do mundo em que vivemos

Onde estamos? O que fazemos? É o tálamo, uma estrutura no meio do cérebro, que nos fornece essas respostas a cada instante, sem parar, criando a sensação conhecida por consciência
O radar interno

Os cientistas descobriram que o tálamo emite sinais elétricos comparáveis 1 a ondas de radar. Os sinais vão em direção à superfície cerebral chamada córtex, fazendo uma varredura no sentido da testa para a nuca 2. Quando encontram uma das áreas do córtex ativada, voltam ao tálamo, repetindo a informação 3. Assim, vamos imaginar um indivíduo numa praia. O tálamo vai captar, primeiro, os sinais de cheiro de mar, na região especializada em olfato 4. Em seguida, o calor do sol registrado na parte do córtex que capta informações de temperatura ambiente. Ao tálamo também chegam a sensação de estar caminhando 6, o som do latido de um cachorro que passeia na areia 7, a visão do lugar 8. Em menos de um décimo de segundo, as informações são somadas, criando a consciência 9.

Células vão ficando boas de papo

A gente também ouve com os olhos, segundo os pesquisadores que investigam como o sistema nervoso desenvolve a linguagem
Quando se aprende a falar, o córtex visual 1 e a área da audição 2 são ativados, como mostram as manchas vermelhas na imagem ao lado. Mais tarde, a criança repete algumas palavras, acionando os centros da fala 3. E quando expressa idéias complicadas bota quase todo o córtex para funcionar 4.

Como a gente fala e os pássaros cantam

Estudos indicam que a fala humana e o canto dos pássaros se desenvolvem de um jeito parecido.
Como a gente fala e os pássaros cantam

Estudos indicam que a fala humana e o canto dos pássaros se desenvolvem de um jeito parecido

Abertos a novidades
O passarinho recém-nascido pode aprender o canto típico de seus pais. Mas se entrar em contato com outra espécie, também aprenderá o jeito de cantar estranho. A princípio, o ser humano recém-nascido também pode gravar perfeitamente sons de qualquer língua.

De orelha em pé
Mais tarde, os filhotes de aves ficam desconfiados quando ouvem sons diferentes e tendem a só prestar atenção no canto da sua espécie. O cérebro da criança também passa a só gravar sons mais comuns – justamente os sons da sua língua.

Feito papagaios
Pássaros e crianças, na etapa seguinte, repetem os sons dos adultos. Isso marcará o cérebro de ambos para sempre, criando conexões de neurônios. A criança, ao se tornar adulta, jamais perderá o sotaque de sua língua de origem. Experiências em que os cientistas tentaram ensinar cantos estranhos para pássaros maduros mostraram que, quando eles conseguem aprender, o “sotaque” estrangeiro também é inevitável.

O retrato nítido da esquizofrenia

Só a partir de 1993 é que os cientistas começaram a ver o sistema nervoso em plena ação. Agora surgem imagens impressionantes, como a das alucinações
Com as idéias no lugar certo

Esta é a imagem do cérebro de um indivíduo normal. As áreas amarelas são as que estão recebendo mais sangue – portanto as que estão ativadas. Geralmente, as pessoas têm esse padrão

Com tudo em desordem
Este é um cérebro com alucinações. Embora o exame tenha sido feito em um ambiente silencioso, as áreas da audição, nas laterais, estão mais ativadas do que o normal – isso indica que o paciente está ouvindo vozes que não existem.

O que esperar para o ano 2 000

Até o final da década, os pesquisadores prometem muitas novidades no tratamento de doenças
Derrame

A mancha vermelha é um derrame. Além da área afetada pelo vazamento de sangue, os neurônios nas vizinhanças do acidente se suicidam, aumentando os estragos. Mas drogas para evitar o suicídio celular, diminuindo as seqüelas, serão testadas este ano.

Alzheimer
As manchas escuras abaixo são áreas em que os neurônios degeneraram por causa do Mal de Alzheimer, que destrói rapidamente o raciocínio – efeito nefasto que será retardado em cinco anos com novos remédios em testes.

Epilepsia
Uma espécie de marca-passo poderá ser implantado no cérebro para normalizar as transmissões nervosas ao menor sinal de alterações. Isso evitará os ataques epilépticos.

Vícios
Devem surgir moléculas criadas em laboratório que se encaixam no mesmo lugar do álcool ou da cocaína nos neurônios, curando a dependência, sem sofrimento para o viciado.

O controle de todo o corpo

Direta ou indiretamente, o cérebro comanda o funcionamento de todos os órgãos do corpo, por meio de hormônios ou de sinais nervosos. Se não faz isso direito, surgem doenças
Parecidas com sementes, oito pequenas estruturas de nome complicado – órgãos circunventriculares – controlam todos os cantos do corpo. Uma delas, a mais próxima da nuca, conhecida por área postrema, passou a ser muito estudada. Não é à toa: ela controla a pressão do sangue nas artérias. O tempo todo, seus sensores estão analisando a quantidade de certas substâncias no sangue. Conforme o que encontram, os sensores disparam sinais. ”É possível que várias doenças tenham de ser tratadas diretamente no cérebro”, diz Alan Kim Johnson, da Universidade do Iwoa, nos Estados Unidos. A pressão, então, deveria ser regulada com drogas que atuem na área postrema.

Para cima
Quando moléculas de um hormônio chamado angiotensina se encaixa nas células da estrutura cerebral, elas logo disparam uma ordem para as paredes de cada vaso sangüíneo do corpo se contrair, aumentando a pressão.

Para baixo
Por sua vez, quando a pequena estrutura percebe que existem muitas moléculas de vasopressina no sangue – outra substância que faz a pressão aumentar – ela envia uma ordem para os vasos sangüíneos relaxarem. Assim, se tudo vai bem no cérebro, a pressão de um indivíduo nunca está alta nem baixa demais
.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

socialização: reforço e modelagem

A observação de reflexos inatos ou condicionados envolve os estímulos (reforçamentos) como parte do processo de aprendizagem, onde o desempenho está associado à modelação, pelo incentivo à habituação, onde o comportamento é escolhido, modificando o meio, gerando aprendizagem incluindo a domesticação.
Segundo Vila e cols. (1997), os seres humanos têm exercido controle de reforços aos animais usando comida e água, há muito tempo; dessa forma os cães passam a responder não apenas de acordo com as contingências do meio, mas, preferencialmente, de acordo com aquelas eliciadas pelos humanos (Udell & Wynne, 2008).
Além desta ontogenia, as pessoas têm sido responsáveis pelo controle filogenético dos cães, que são selecionados por cruzamentos planejados para refinamento de características comportamentais ensejados pelos criadores (Udell & Wynne, 2008). Assim, a domesticação explica a disposição dos cães em responder às contingências humanas (Udell & Wynne, 2008), uma vez que os cães obedientes são preferidos para a reprodução comercial quanto para a companhia dos donos.
No toque do trato que envolve as habilidades sociais e comunicativas com os animais, diante da inibição do animal, o foco está na indução à estimulação de tarefas aonde se elicia uma modificação no comportamento inato pelo condicionamento que inclui a possibilidade de exclusão (pôr em extinção outro comportamento), cuja generalização denota uma interrelação do animal com os que o cercam após condicionado.
Muitos teóricos têm discutido sobre as habilidades sociais e comunicativas entre homens e cães (Cooper, Ashton, Bishop, West, Mills, & Young, 2003; Wobber, 2005). Também, Tem-se verificado que os cães resolvem tarefas envolvendo gestos comunicativos de treinadores de forma mais fácil que primatas não-humanos (e.g. Soproni, Miklósi, Csányi, & Topál, 2001).
Segundo (Kaminski e cols., 2004), há indícios de que os cães podem responder por exclusão similar aos  humanos, tendo sensibilidade para responder aos controles emitidos por humanos (Call e cols., 2003).
Conforme Dixon, (1977), os cães podem responder por exclusão, definido brevemente qual a escolha da alternativa correta, não respondendo às demais.
Zimen (1981) ressalta que a inteligência dos cães varia conforme as raças aonde algumas são mais sensíveis a treino e aprendizado de comandos.
Entre a satisfação do reforço e a punição (que envolve a integração entre homem e animal), numa possível situação de fuga, existe uma lei do efeito, aonde em tentativas e erros, se percebe uma motivação no sentido de que a gratificação dá exibição de sinais de condicionamento operante.
Conforme Kitagawa & Coutinho (2004),a  integração homem-cão, tem sido benéfica para a saúde física e saúde mental do ser humano, proporcionando relaxamento e carinho com o animal de estimação.
Além disso, Wilsson & Sundgren (1997) afirmam que o cão passou a ser treinado para execução de atividades conforme o potencial apropriado, gerando um grande número de raças obtidas no controle e manipulação genética por seleção de indivíduos e cruzamentos programados para obter destaque em características desejadas.
Conforme Range et al. (2008) os cães respondem discriminadamente a classes de estímulos visuais, em comportamento pré-simbólico e simbólico, tendo em vista as prováveis semelhanças comportamentais (Cooper et al., 2003; Wobber, 2005).
Segundo o Dicionário de Psicologia APA, a Modelagem é a produção de novas formas de comportamento operante pelo reforço de aproximações sucessivas ao comportamento; também denominado approximation coditioning; modelagem comportamental.
A modelagem é uma variedade de seleção que seria o paralelo ontogenético da seleção filogenética que ocorre na evolução biológica (Donahoe, Burgos, & Palmer, 1993). Essa relação é mais óbvia quando usada por um treinador humano, como no ensino de habilidades a um cão (...) (Cf. Pryor, 1985; Squier,1993).

Diferença Entre a Psicologia Comportamental e a Análise do Comportamento

A Psicologia Moderna é uma área do conhecimento que em 2009 fará 130 anos. Fundada em 1879 quando o alemão Wilhelm Wundt criou o primeiro instituto de psicologia experimental dotado de laboratórios na Universidade de Leipzig em seu país é uma área muito ampla que possui diversas escolas de pensamento, áreas de pesquisa e que pode se aplicada em diversos contextos. Muitos leigos, estudantes e até mesmo profissionais de Psicologia em decorrência dessa amplitude confundem os conceitos de Psicologia Comportamental e Análise do Comportamento. A maioria acredita se tratarem da mesma coisa.
O objetivo deste artigo é mostrar que a Análise do Comportamento é uma área definida do conhecimento humano enquanto o termo “Psicologia Comportamental” é uma palavra genérica que não diz muita coisa. No máximo podemos dizer que a Análise do Comportamento está inclusa dentro da Psicologia Comportamental não significando, portanto que são a mesma área.
Starling (2003), uma dos maiores Analistas do Comportamento do Brasil, afirma que
“‘Psicologia Comportamental’ é uma denominação excessivamente genérica. De uma maneira imprópria, esta denominação pode englobar visões de mundo, pressupostos e conjuntos tecnológicos muito diferentes, muitas vezes incompatíveis entre si, tais como, por exemplo, o behaviorismo primitivo tal como formulado por Watson em 1913 e conhecido como Behaviorismo S-R, o behaviorismo mentalista de Hull e o behaviorismo mediacional de Tolman, a análise do comportamento de inspiração skinneriana, o neobehaviorismo metodológico que encontra sua expressão mais madura nos cognitivismos contemporâneos, o conjunto eclético e empirista das chamadas ‘comportamentais-cognitivas’ e ainda outras práticas que eventualmente usam o adjetivo ‘comportamental’ para qualificar, muitas vezes inapropriadamente, o seu substantivo. Assim, embora de uso comum por profissionais estranhos à área, a denominação ‘psicologia comportamental’ simplesmente não faz sentido e não se pode saber o que se deve entender por ela”.
Com respeito á Análise do Comportamento Starling (2003) afirma que “a Ciência do Comportamento [Análise do Comportamento] constitui um campo disciplinar por direito próprio, uma ciência natural, com afinidades epistemológicas, conceituais e metodológicas com a física, a química e a biologia contemporâneas”.
Falcone (2004) ao diferenciar a prática clínica de Analistas do Comportamento (também chamados de Behavioristas Radicais) e dos Psicólogos Cognitivistas - Comportamentais afirma que
Uma diferença entre cognitivistas e behavioristas parece estar no nível de rigor científico que permeia os conceitos teóricos de ambos os enfoques. Para os behavioristas radicais, aceitar o uso da palavra ‘cognição’ seria aderir a uma postura dualista, o que constituiria um sério problema metodológico. Deste modo, a referência às reações cognitivas como ‘comportamentos encobertos’ foi uma estratégia brilhante que estendeu o modelo operante à compreensão de fenômenos mais complexos. Cognitivistas-comportamentais também consideram as cognições como um sistema de respostas, mas não de uma forma tão compromissada com contingências e com termos precisamente impostos. Embora preocupados com validade empírica e expressão de conceitos operacionais, eles não são tão rigorosos do ponto de vista científico. [...] Outra diferença encontrada entre cognitivistas e behavioristas está na ênfase dada às contingências ambientais e às cognições. Enquanto o primeiro grupo busca encontrar crenças subjacentes para entender de que maneira as reações cognitivas influenciadas pelas afetivas/fisiológicas e comportamentais, o segundo processo procura saber que tipos de contingências levariam um comportamento a ocorrer e a influenciar outro comportamento. Deste modo behavioristas radicais enfatizam a determinação ambiental na compreensão dos comportamentos (abertos e encobertos) do indivíduo, enquanto cognitivo-comportamentais priorizam os processos cognitivos, considerando que o homem reage a um ambiente percebido e não a um ambiente real”.
Se levarmos em consideração essas colocações perceberemos que é um erro teórico confundir Psicologia Cognitiva - Comportamental ou Comportamental - Cognitiva com Análise do Comportamento.
No máximo podemos dizer que a Psicologia Cognitva-Comportamental é um tipo de Psicologia Cognitiva que se utiliza intensivamente de tecnologia criada pela Análise do Comportamento, mas que apesar disso continua sendo um tipo de Psicologia Cognitiva, pois não é embasada pelo Behaviorismo Radical - a filosofia de ciência que embasa a Análise do Comportamento.
Esse tipo de Behaviorismo é radical por que nega que os eventos mentais causam o comportamento humano e que aqueles tenham uma natureza diferente destes. Assim nega a existência de todos os eventos que não tenham uma explicação natural e aceita, obviamente, todos os eventos que tenham essa propriedade.
A Análise do Comportamento é uma Ciência Natural que se divide em três partes
O seu braço teórico, filosófico, histórico, seria chamado de Behaviorismo Radical. O braço empírico seria classificado como Análise Experimental do Comportamento. O braço ligado à criação e administração de recursos de intervenção social seria chamado de Análise Aplicada do Comportamento”. (TOURINHO, 1999 apud CARVALHO NETO, 2002)
Uma das marcas mais interessante da Análise do Comportamento é sua aplicação que está difundida em vários contextos. Starling (2003) afirma que a Análise do Comportamento é constituída de várias áreas de intervenção
“Da Modificação do Comportamento, da Intervenção Clínica Analítico-comportamental, da Tecnologia do Ensino, da Análise Comportamental das Organizações (Organizational Behavior Management ou Performance Appraisal), da Medicina do Comportamento e da Análise Funcional da Enfermidade (contextos médico-hospitalares) além de aplicações particularizadas, tais como em problemas sociais (Behavior Analysis for Social Action), autismo, engenharia de segurança, marketing, etc.”
O mais importante de tudo é entendermos que não podemos falar do que não sabemos. A psicologia brasileira e especialmente a piauiense carece muito de aprofundamento teórico e na grande maioria das vezes os erros cometidos por estudantes e profissionais de Psicologia derivam da falta de leitura e compreensão das escolas de pensamento que fazem a Psicologia.
Starling (2003) afirma que
“É somente através do conhecimento da matriz conceitual como um todo, na plena articulação dos seus componentes, que se pode apreciar criticamente a ciência do comportamento [Análise do Comportamento] e talvez por isso, e por ser um campo lingüístico muito recente (tem menos de 50 anos), é uma proposição ainda virtualmente desconhecida, mesmo no meio profissional da psicologia e áreas afins. O pouco que habitualmente se conhece – e se critica - restringe-se o mais das vezes a um entendimento fragmentário do primitivo Behaviorismo S-R (estímulo-resposta), já há muitas décadas de interesse somente histórico para o analista do comportamento.”

Comportamento verbal e os principais operantes

Segundo Skinner (1957) o comportamento verbal é um comportamento operante, que ocorre quando um indivíduo se comporta e existe a mediação do outro.
Segundo Skinner (1957) o ouvinte responde aos estímulos verbais produzidos pelo falante. O indivíduo é falante ao comportar-se verbalmente perante o outro e torna-se um ouvinte ao comportar-se funcionalmente a estímulos verbais produzidos por outros indivíduos.
O comportamento verbal constitui uma resposta que ocorre sob efeito de múltiplas causas, como comportamento operante o comportamento verbal pode ser explicado a partir da análise de uma contingência de 03 termos. As diferentes características das relações entre os 03 termos é que caracterizam os diferentes operantes verbais.

Como principais operantes verbais tem-se:
Mando- operante verbal pelo qual a comunidade verbal é capaz de dar ordens, fazer pedidos, identificar reforços necessitados pelas pessoas, fazer perguntas, dar conselhos e avisos, pedir atenção de alguém, etc.
O repertório de mando (assim como outros operantes verbais) é construído em situações em que um operante verbal emitido sob privação ou estimulação aversiva foi seguido de uma mesma conseqüência reforçadora.
SD(OE)->  R(falante)->   C(especifica)/(ouvinte)

O mando especifica seu reforço, enquanto os outros operantes verbais (tato, ecóico, intraverbal, textual...) são relativamente independentes de qualquer operação estabelecedora. O controle antecedente é exercido por estímulos antecedentes específicos e emitem reforçador não-específico.

Tato- permite que a comunidade verbal tome contato, indiretamente, através do comportamento verbal do falante, com vários aspectos do ambiente físico e cultural. O tato é controlado por estimulo discriminativo não-verbal, tendo como conseqüência o reforço generalizado(tato puro). Porem pode ficar sob controle de um antecedente e de uma operação estabeledora, neste caso também é um mando(tato impuro).
Segundo Skinner o tato seria o operante verbal mais importante devido ao controle exercido por um estimulo antecedente não verbal estabelecido por uma comunidade reforçadora. O tato beneficia o ouvinte porque amplia a sua interação com o meio, possibilitando o ouvinte ter contato com um estimulo, mesmo na ausência dele, a partir da resposta do falante. E beneficia em relação a aprendizagem, como por exemplo a criança tatear cores, letras, números.

SD(ñ verbal)->
R(verbal)(falante)->
C( reforço generalizado)

Além deste conceito há também o tato autodescritivo, comportamento verbal emitido por um individuo controlado por outro comportamento emitido pelo mesmo.
 Ecóico- condição prévia necessária para o estabelecimento de outros tipos de operantes verbais. É controlado por estimulo discriminativo verbal apresentado por outro falante e por reforço generalizado. O estimulo discriminativo e a resposta verbal correspondem  ponto-a-ponto. O individuo atua como ouvinte e como falante.

SD(verbal)(falante)->
R(verbal)(ouvinte)->
C(não especifica)
R=SD

Intraverbal- O intraverbal diferencia-se do tato basicamente por causa dos estímulos discriminativos que controlam cada um dos dois, no caso do primeiro, o discriminativo é verbal e no segundo não-verbal.

SD(verbal)(falante)->
R(verbal)(ouvinte->
C( não especifica)
SD≠R

Adquirindo um repertorio intraverbal fica mais fácil adquirir outros comportamentos verbais e não-verbais. Quando um individuo adquire um repertorio intraverbal, aumenta a força de suas respostas verbais, pois estas ficam sob controle de uma diversidade de estímulos verbais que são produzidos pela comunidade.
Após esta apresentação breve dos principais operantes verbais pode-se notar que o que  diferencia o comportamento verbal em relaçao a outros operantes é que  as relações entre a conseqüência provida pelo ambiente e a resposta são mediadas por pessoas. A função do comportamento verbal relaciona-se a vida do homem em sociedade.
Cada operante verbal exerce um controle funcional independente. Portanto adquirir um operante verbal pode ser requisito para aquisição de outro operante verbal, não necessiariamente torna a pessoa apta a emitir todos os operantes a partir da aprendizagem de um.
Em se tratando de ensino a crianças com desenvolvimento atípico é muito comum a falta de habilidade de lidar com operantes verbais. Dentre os vários manuais utilizados, Fazzio notou a falta de homogeneidade entre os programas de ensino, alguns priorizam iniciar os treinos com comportamentos nos quais o individuo atua como falante, em outros que o individuo atue como ouvinte.
Porem todos envolvem inicialmente treinos mais simples, com topografias menores e poucas relações de controle de estímulos envolvidos e vai se estendendo para treinos mais complexos com topografias maiores e mais relações de controle de estímulos envolvidos. O que se faz essencial neste aspecto é considerar o repertorio de cada individuo, para organização e planejamento dos treinos dos operantes.

Pombos correio

Pombo-correio do criador Brasilio Marcandoro Neto, diretor da Federação Paulista de Columbofilia. Foto: Fernando Moraes




















O pombo-correio não leva uma mensagem espontaneamente a um determinado destino, como muita gente pensa. Ao invés disso, ele é transportado de seu local de origem até um certo ponto de partida, de onde ele saberá como retornar à sua casa. "É um mecanismo natural que ele tem. Trata-se de uma estratégia adaptativa, ou seja, um resultado da seleção natural. Alguns animais são nômades, outros, migratórios. Já os pombos-correio possuem uma moradia fixa e procuram sempre voltar para esse abrigo, onde encontram proteção, alimento e os membros de seu bando", diz o professor Ronald Ranvaud, que ministra as disciplinas de Neurofisiologia e Ciências Cognitivas no Departamento de Fisiologia e Biofísica do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP). "Na etologia, que engloba os estudos de comportamento, isso é chamado de fidelidade ao sítio de origem", complementa. Ele conta que, além dessa característica, esses animais apresentam também um comportamento gregário, o que significa que não são solitários e, por isso buscam estar sempre juntos a um bando.
Os pombos-correio são da mesma espécie dos pombos comuns que se veem nas ruas, mas pertencem a uma raça diferente. Seu porte é maior e possuem uma carúncula mais acentuada na base do bico. Durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, eles foram bastante utilizados para o envio de mensagens, como um recurso alternativo de comunicação. "Documentos da época mostram caminhões que serviam como pombais móveis. Mesmo que eles fossem levados a lugares diferentes a cada dia, desde que não muito distantes do local de origem, os pombos conseguiam voltar", conta o professor. Ronald explica que as mensagens ou encomendas são geralmente amarradas na perna do animal, ou colocadas em um tipo de mochila especial. Hoje em dia, essas aves ainda são utilizadas como mensageiras. "Até recentemente, o exército russo mantinha uma 'divisão' para pombos-correio. Na Inglaterra, há cerca de dez anos, um hospital os usava para levar amostras ao seu laboratório, por ser um transporte mais rápido, que não precisa enfrentar o trânsito. E faz parte do folclore que elas também sejam usadas no contrabando de drogas e diamantes".
Mas não é qualquer pombo que se pode usar como mensageiro. Se pegássemos um exemplar na rua e o levássemos para um local desconhecido, ele provavelmente conseguiria voltar para casa - mas existe uma limitação. "Se o animal for afastado cerca de 15 km de onde vive, por exemplo, ele certamente saberia encontrar o caminho de volta. Mas se essa distância exceder uns 50 km, ele dificilmente voltaria, pois precisaria ter um porte de atleta", diz Ronald Ranvaud. Por isso, os pombos-correio são treinados desde pequenos a voar longas distâncias para ganhar resistência e não se perderem. O treinamento começa a ser realizado a partir do momento em que o animal aprende a voar, geralmente aos 30 a 45 dias de vida. "Inicialmente, ele faz voos livres todos os dias, não se afastando muito do pombal. A partir dos três meses de idade, já se pode afastá-lo uns 30 km de sua casa que ele saberá voltar", conta o professor. Aos poucos, as distâncias vão aumentando e as direções para onde é levado também são diversificadas. "Cada uma dessas ocasiões representa um aprendizado", explica o professor.
Para se guiar no caminho de volta, os pombos possuem três habilidades fundamentais: a visão, pela qual localiza o Sol e identifica sua posição (leste, oeste e norte); o relógio interno, por meio do qual identifica o período do dia (manhã, meio-dia, tarde, noite); e a memória, que ele utiliza para aprender a relação entre a posição do Sol e o horário. "O Sol muda de lugar ao longo do dia: de manhã, indica o leste; ao meio-dia, o norte (no hemisfério sul); de tarde, oeste. Funciona como uma bússola", diz Ronald. "Mas para usar o astro como bússola, é essencial ter um relógio para saber qual a sua posição a cada hora do dia". Para comprovar a importância dessa relação, o professor cita um experimento onde um pombal é colocado dentro de um laboratório sem janelas durante uma semana. A luz é ligada todos os dias na posição onde nasce o Sol, mas com seis horas de atraso, ou seja, ao meio-dia, e desligada também seis horas depois que ele se põe, à meia-noite. "Se depois disso, o pombo for levado a uma distância pequena e liberado ao meio-dia, a ave vai olhar para o Sol e achar que são seis da manhã, porque seu relógio interno está atrasado. Então interpretará que a posição indicada pela luz é o leste, quando na verdade é o norte. Então é como se ele virasse o mapa 90 graus para a esquerda", comenta. Apesar disso, alguns conseguem voltar, mesmo que levem alguns dias, pois, aos poucos, seu relógio e sua bússola internos vão se ajustando. "É como o jet lag, a gente leva uns dias para se adaptar", diz Ronald.
Atualmente, além de transportadores de mensagens e encomendas, os pombos-correio são usados em competições chamadas columbofilia. Esses torneios mostram que é muito difícil definir a distância máxima que esses animais conseguem percorrer no caminho de volta para seu abrigo. "Há uma prova na Europa em que eles partem de Barcelona e chegam à Bélgica, percorrendo quase mil quilômetros. No Brasil, há uma em que saem de Brasília e chegam a São Paulo, ou seja, são mais de 900 quilômetros e tem pombo que voltou no mesmo dia. Alguns deles voam direto, sem paradas. Outros até param para beber água, por exemplo, depende da condição de cada um". E muitos deles não voltam: ou porque se perdem, ou porque são capturados por predadores, como o gavião.
Além dos pombos, outros animais também possuem essa capacidade. "Praticamente todos eles conseguem encontrar o caminho de volta para casa, em maior ou menor grau", diz Ronald. "As abelhas fazem isso o tempo todo. Os gatos também conseguem. Se o seu dono tenta abandoná-lo levando-o para longe, depois de alguns dias ou semanas ele estará de volta em casa. Foi feita uma experiência com albatrozes no sul do Havaí, levando-os para regiões como Califórnia, Alaska e Japão, e a maioria retornou, de distância de 3 mil até 6 mil quilômetros".

quarta-feira, 16 de abril de 2014

A pena de morte em Israel era por apedrejamento ou crucificaçao?

A pena de morte em Israel era por apedrejamento ou crucificaçao?

A pena de morte em Israel costumava ser por apedrejamento, não crucificação, que era um costume romano e de outros povos. Então por que vemos no Antigo Testamento uma previsão para o que fazer com o que fosse pendurado no madeiro? Esta dúvida levou você a indagar se a pena de morte em Israel não seria também por crucificação.


Deu_21:22-23 Quando também em alguém houver pecado, digno do juízo de morte, e for morto, e o pendurares num madeiro, O seu cadáver não permanecerá no madeiro, mas certamente o enterrarás no mesmo dia;porquanto o pendurado é maldito de Deus; assim não contaminarás a tua terra, que o SENHOR teu Deus te dá em herança. 

A mesma palavra ("ates") no original usada em Dt 21:22 também é usada em Js 8:29 ao descrever um enforcamento -- as pessoas eram penduradas no"madeiro". Nas passagens do Antigo Testamento a palavra "ates" é utilizada indiferentemente para estaca, lenha ou árvore. Em Gn 22:6 ela aparece traduzida por "lenha" na versão Almeida, quando fala de Abraão colocando sobre seu filho Isaque o "madeiro" que seria utilizado no holocausto. Aqui temos uma figura de Cristo subindo para ser crucificado ou pregado no madeiro. A palavra "lenha" de Gn 22:9, quando Abraão amarra seu filho para sacrificá-lo, é o mesmo "madeiro" ou em hebraico "ates".

Perdemos muito com a tradução, pois dá para ver, por exemplo em Gn 18:8, que Abraão e o Senhor estão comendo à sombra do "madeiro" (traduzido como "árvore" em nossas versões), o que nos leva a pensar em como Deus já fazia questão de apontar o lugar onde o Seu Filho iria terminar nos Evangelhos.

Em Israel, depois de uma pessoa ser morta por apedrejamento, espada, lança etc., o corpo morto podia eventualmente ser pendurado em uma árvore ou madeiro como símbolo de vergonha e desonra. Isto é dado a entender no versículo 22 acima, "e for morto, e o pendurares num madeiro", que está falando de um corpo pendurado no madeiro, não necessariamente tendo sido morto ali. 

Em Josué 10:26-27 vemos que pessoas eram enforcadas em madeiros (ou árvores), mas não eram tiradas dali pelo restante do dia, ficando como um espetáculo público da própria desonra. Nada disso é estranho a nós brasileiros, quando sabemos que Tiradentes, depois de enforcado (em uma forca ou "madeiro" na concepção do Antigo Testamento), teve seu corpo desmembrado e os membros pendurados em postes (madeiros) para exposição pública, como está representado neste quadro de Pedro Américo.

 

O formato do madeiro nas passagens bíblicas -- estaca, cruz, "T", "X" -- não é especificado e não é tão importante quanto seu significado. Na conversa com Nicodemos, o Senhor Jesus fez referência à sua morte mencionando que seria como a serpente de bronze que tinha sido levantada no deserto, o que indica que ele estava comparando o a cruz ou "madeiro" ("ates") à "haste" ("nace") sobre a qual a serpente de bronze foi levantada. Ainda que no Antigo Testamento sejam usadas palavras diferentes para "madeiro" ("ates") e"haste" ("nace") aprendemos com isto que o princípio e simbolismo é o que importa, e não a coisa em si, seu formato ou o material de que é feito.

O madeiro, portanto, não tem qualquer poder como objeto, mas é o que aconteceu ali que importa. Infelizmente, assim como os israelitas fizeram mais tarde com a serpente de bronze, transformando-a em objeto de idolatria (2 Rs 18:4), hoje milhões de cristãos veneram a cruz de madeira, como se existisse nela qualquer poder sobrenatural, ou a utilizam como um talismã para sorte e proteção. Isto é tão ruim quanto a idolatria e o culto à serpente de bronze de 2 Reis, a que ganhou até nome de um deus: "Neustã".

Juntando tudo, podemos dizer que, além de morrer por nós, o Senhor sofreu a humilhação da reprovação pública, ao ficar pendurado no madeiro. A Lei considerava uma pessoa naquela situação maldita, e assim Jesus também foi feito maldição em nosso lugar. Na Lei, quem ficava pendurado no madeiro deixava claro estar pagando ali por uma afronta contra Deus, e Jesus fez isso mesmo, ao assumir nossos pecados e morrer na cruz como se ele próprio tivesse desobedecido a Deus, apesar de sabermos que ele era, em si mesmo, sem pecado, por ser o Filho de Deus.

Gál 3:13 Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro

Heb 12:2 Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus. 

por Mario Persona 

Os Homens de Tollund, de Grauballe

 texto e fotos de Johnny Mazzilli
A expressão serena do morto intriga os cientistas até hoje.

Os Homens de Tollund, de Grauballe, de Barremose e de Raevemosen. Mulheres de Elling, de Haraldskær e de Yde. Cada um desses corpos é um testemunho silencioso de histórias de vida e morte intrigantes ainda não desvendadas. Dezenas de cientistas se debruçaram sobre eles em busca de respostas que surgem precárias e fragmentadas, como retalhos da colcha do passado. Mas, pouco a pouco, um vislumbre de como se vivia e morria em tempos heroicos, na Dinamarca, aparece.
Nas planícies da Península da Jutlândia abundam solos de turfa resultante da decomposição de musgo, junco e arbustos, geralmente em áreas saturadas de água. Dois tipos de musgo, o Sphagnum e o Hypnum, crescem em ecossistemas ácidos e encharcados, como os pântanos. No passado, a turfa seca era usada como combustível. Cortada nos pântanos, era queimada em lareiras e fogões, aquecendo as casas e cozinhando os alimentos.
À direita, o cadáver nu, com gorro, corda no pescoço e cinto de couro. À esquerda, um pântano de turfa.

Em 6 de maio de 1950, os irmãos agricultores Emil e Viggo Hojgard (pronuncia-se Rôigord), após semearem uma lavoura, foram ao Pântano Bjaeldskov, localizado a 6 km da pequena cidade de Silkeborg, para cortar turfa para suas casas. Ao cavar o terreno arenoso e macio, a pá de Viggo bateu em algo duro. Removida a turfa, descobriu-se o corpo de um homem estrangulado por uma corda, cuja preservação induziu os irmãos a imaginar um assassinato recente. A polícia, entretanto, já tinha conhecimento do aparecimento de vários corpos semelhantes na área, no passado, e levou um arqueólogo ao local.
Assim, foi descoberto o corpo pré-histórico mais preservado que existe. Os exames da datação do carbono-14 revelaram que ele vivera por volta do ano 350 a.C. e morrera com aproximadamente 40 anos, durante a Idade do Ferro das tribos celtas da Europa Central. Tinha 1,61 metro de altura, cabelos ruivos e estava nu, apesar de vestir um gorro e ter um cinto de couro de 77 centímetros de comprimento em volta da cintura.

O homem de Tollund ganhou esse nome em homenagem à vila onde os irmãos Hojgard viviam. Em torno de seu pescoço havia um sulco profundo e uma corda de couro trançado – usada no enforcamento. Na cabeça usava um gorro de couro de ovelha em ótimas condições, forrado de lã no interior. A serenidade da face e o excepcional estado de conservação tornaram-no uma celebridade instantânea no jet set dos corpos da turfa.
Sob o corpo havia uma fina camada de musgo. Pela sua posição, concluiu-se que fora cuidadosamente depositado na turfeira, há dois mil anos. A autópsia e os exames realizados no Hospital Bispebjerg e no Museu Nacional da Dinamarca mostraram que a cabeça e os órgãos internos encontravam-se intactos. O estômago e os intestinos revelaram uma última refeição: sopa de legumes, com grãos de cevada, 30 tipos de semente de espécies cultivadas e selvagens e várias ervas daninhas. A presença do alimento no intestino grosso indica que foi consumido entre 12 e 24 horas antes da morte. De posse da lista de ingredientes, os arqueólogos chegaram a reproduzir a sopa, mas o gosto não agradou.
Emil e Viggo Hojgard (esquerda) pensaram que o morto de Tollund provinha de um crime recente. À direita, o corpo exposto no Museu Nacional.

Em 1938, 12 anos antes, outro corpo fora descoberto a apenas 80 metros de distância – a mulher de Elling. Sua preservação, entretanto, resultara precária; apenas o cabelo e o penteado estavam intactos. Assim como o homem de Tollund e quase todos os corpos encontrados nas turfeiras, a mulher de Elling tinha cabelos avermelhados, não por ser ruiva, mas porque a acidez do pântano descoloriu-os. Exames realizados em 1976 revelaram que a moça tinha cerca de 25 anos e apresentava um sulco visível ao redor do pescoço. Ao lado do corpo, havia uma corda curta de couro trançado. Tal como o homem de Tollund, morrera por enforcamento.
As condições físico-químicas da turfa preservam a pele e os órgãos internos graças à água altamente ácida, fria e pobre em oxigênio, quase anaeróbica – hostil ao desenvolvimento de bactérias. No entanto, os ossos resistem menos, pois a acidez dissolve o fosfato de cálcio da estrutura. Ao longo dos séculos essas condições também enegreceram os corpos. A prolongada imersão ainda eliminou a possibilidade de um exame de DNA. Diversos estudos continuam sendo realizados nos corpos da turfa, mas nunca foi feito um teste de DNA nos cadáveres que já foram descobertos na Irlanda, no Reino Unido, na Holanda, na Alemanha e na Suécia.

Até 1965, nada menos do que 1,8 mil corpos já haviam sido descobertos em pântanos da Europa Setentrional. Na época, muitos recursos de pesquisa de hoje estavam longe de existir. Parte dos corpos era formada por apenas fragmentos, muitos dos quais, uma vez retirados dos pântanos, rapidamente se deterioraram. Parte do material foi catalogada, muita coisa se perdeu e poucos cadáveres – só os mais bem preservados – se tornaram objetos de interesse e ganharam notoriedade.
Nos pântanos da Jutlândia, os corpos mostram sinais de terem sido executados por enforcamento e depositados na turfa, e sua datação é parecida. Os arqueólogos acreditam que se trata de vítimas de sacrifícios humanos na época do paganismo germânico politeísta, durante a Idade do Ferro, que durou de 500 a.C. até o ano 800 d.C. As turfeiras eram lugares de contato e de sacrifício aos deuses.
Da mulher de Elling restou intacto apenas o cabelo ruivo, descolorido pela acidez da turfa. Também ela foi enforcada.

Depois de executado, o homem de Tollund não foi abandonado ao ar livre ou atirado em uma vala, tratamento dado a criminosos e a inimigos, mas, sim, colocado no lugar onde foi enterrado, junto com a corda arrumada em espiral. Os olhos e a boca foram cerrados como se dormisse. A língua, entretanto, estava distendida – sinal de enforcamento. Aparentemente, foi morto no fim do inverno ou no começo da primavera, sugerem os ingredientes encontrados em seu estômago. Nessa época os sacrifícios eram associados à deusa da primavera, Ostera, no paganismo germânico. Só os melhores homens eram destinados aos deuses.
Não há registros escritos desse tempo. Mas quatro séculos depois, o escritor romano Cornélio Tácito coletou relatos de mercadores que viajaram pelo norte e contaram que as tribos escandinavas costumavam “enforcar em árvores traidores e renegados, que eram afundados no pântano e cobertos de gravetos”. Outras, “como a tribo dos semnonanos, do norte da Alemanha, sacrificavam homens aos deuses por enforcamento”. Um bracelete de prata encontrado com o corpo do homem de Raevemosen – o famoso Gundestrupkarret – retrata uma cena de sacrifício, ocorrida na mesma época do homem de Tollund, em que uma vítima é jogada em um tonel. O gorro pontudo de couro de ovelha parece ser o mesmo.

Após os exames, o homem de Tollund, que ficara dois milênios imerso em ambiente anaeróbico, foi trazido a um ambiente aeróbico povoado por bactérias e logo começou a se decompor. Como a cabeça e os pés eram as partes mais preservadas, os cientistas decidiram se concentrar na sua conservação. O restante do corpo foi desidratado e armazenado em uma câmara fria do Museu Nacional, em Copenhague. Uma réplica do corpo foi montada com as partes verdadeiras – a cabeça, a corda do enforcamento, o gorro e os pés – e pode ser vista no Museu de Silkeborg, na cidade homônima.
Anos de investigação permitiram aos cientistas reconstituir a história do homem de Tollund.
Já o homem de Grauballe, outra celebridade oriunda dos pântanos bem preservada pela turfeira do norte da Jutlândia, teve sua garganta cortada no século 3 a.C. Ao contrário da serenidade facial do homem de Tollund, que parece dormir o sono tranquilo dos justos, um enorme talho na garganta e uma expressão atormentada na face parecem revelar a agonia de seus momentos finais. Sobre ele o poeta irlandês Seamus Heaney escreveu um poema que diz: “Como se tivesse sido derramado/ Em alcatrão ele jaz/ Em um travesseiro de turfa/ Parece chorar/ O rio negro de si próprio.”

PARA SABER MAIS
Museu de Silkeborg
www.silkeborgmuseum.dk
The Tollund Man - A Face from Prehistoric Denmark
http://www.tollundman.dk/